Saudades de uma Copa emocionante demais

alemanha campeã mundial
O Mundial de 2014, realizado no Brasil, foi marcado pelos extremos da emoção, entre lágrimas e euforia. Invertendo as expectativas, o megaevento acabou com um excelente resultado de organização e com uma decepção do ponto de vista do futebol jogado pela seleção brasileira.

Enquanto a seleção alemã levantava a Taça Fifa, no Maracanã, na final da Copa do Mundo de 2014, no último dia 13 de julho, um audiência planetária estimada em mais um bilhão de pessoas encantava-se tanto com a qualidade de jogo da nova tetracampeã mundial como também com as imagens em primeiro plano do Cristo Redentor com o estádio mais famoso do Brasil ao fundo, ambos envoltos em fogos e iluminação especial em verde e amarelo.

A mistura do bom futebol com a beleza da Cidade Maravilhosa é uma síntese da Copa do Mundo do Brasil. Intitulada pelo marketing do Comitê Organizador Local como “Copa das Copas”, aos poucos, o Mundial Brasileiro foi, ao seu modo, conquistando um lugar na história e, sem dúvida, ficará marcado por não ser uma “Copa Qualquer”. São muitos os números que mostram a grandeza da Copa Brasileira.
Embalado pelos extremos das emoções – coisa que somente o esporte enquanto drama moderno e midiático pode fazer num mundo globalização e conectado -, o megaevento esportivo da Fifa já deixa saudades e também algumas reflexões. Listo a seguir alguns dos pontos mais relevantes sobre os legados da Copa do Mundo para o Brasil e para o futebol:
O pessimismo endêmico e a agenda negativa – Em primeiro lugar é importante ressaltar a inversão de expectativas que houve ao longo da Copa do Mundo. O clima no início do Mundial era de que o Brasil era um dos favorito ao título de campeão e que a organização seria um fiasco. Ao fim, como vimos, o nosso futebol passou por um vexame histórico na derrota para a Alemanha, na semifinal, por 7 a 1, enquanto na logística do evento as coisas funcionaram bem e sem sobressaltos.
É importante destacar que o catastrofismo com a Copa do Mundo não é uma coisa menor. Acho que esse item que deve ser analisado com seriedade por economistas e jornalistas, pois podemos perceber que a onda do #nãovaiterCopa, que tomou conta do País, ao fim, pode ter impedido que a sociedade se preparasse melhor e talvez até alcançasse uma movimentação de negócios acima dos R$ 30 bilhões destacados pelo Governo Brasileiro.
O mito do legado da Copa – Outro ponto que deve ser aprofundado em balanços futuros é a questão do legado da Mundial de 2014. Em inúmeros textos anteriores ao megaevento, eu já comentava sobre a necessidade de se entender o conceito de legado para uma análise mais satisfatória da Copa do Mundo.
Isso é importante, pois legado é mais que somente a construção de arenas ou de infra-estrutura de suporte aos megaeventos. Há inegavelmente um universo de legados materiais, com estádios, estradas, aeroportos, etc. Mas não se pode esquecer de dimensionar os legados de conhecimento e culturais, que fazem parte do rol dos legados imateriais.
Na parte que envolve esses legados culturais e de conhecimento a Copa vai deixar um importante patrimônio para o Brasil, tanto na consolidação de uma nova imagem do Brasil mundo afora quanto pelo volume de informações que permitirão avançar na produção de conhecimento sobre esporte e cultura na academia e no mercado brasileiros.
O povo do país futebol –  O ditado que diz que “o melhor do Brasil é o brasileiro” é bem conhecido, mas acaba sintetizando um pouco do que aconteceu nessa Copa. Se um dos chavões sobre o nosso país é a ideia de ser uma ilha de excelência do futebol, a perplexidade mundial coma derrota na semifinal da Copa expôs que o padrão futebolístico da escola brasileira perdeu o timing da história. Ficou claro que, para voltar a conquistar o mundo, o futebol brasileiro terá de se adaptar o novo futebol que se joga hoje. Se isso for ignorado, o risco é virar peça de museu.
Por outro lado, a paixão do brasileiro pelo futebol mostrou-se acima da cor da camisa. Se a seleção deixou a desejar e, ao fim, decepcionou, o nível dos jogos foi alto e, para um povo amante desse esporte, isso compensou as tristezas. Sim, a Copa vai deixar saudades, apesar do escrete desafinado do técnico Scolari.
Por fim, não deveria causar surpresas que o povo brasileiro tenha sido listado como um ponto alto da Copa para os mais de um milhão de turistas estrangeiros que passaram pelo nosso país durante o Mundial.
Se o objetivo desse megavento, enquanto estratégia de Estado, era apresentar o Brasil ao mundo e vice-versa, a partir de uma estratégia de geopolítica por meio do esporte e do entretenimento, os resultados são muito promissores.
Além da diversidade de gente dos mais variados países, a Copa contribuiu para que o brasileiro redescobrisse que faz parte da América do Sul e os demais povos sulamericanos também se voltassem para o Brasil. Digamos que caminhos de integração regional foram abertos. Caberá aos nossos líderes fomentar o diálogo para que essa interação se amplie.
Há muitos outros temas que precisam ser abordados, como o legado da Copa para jornalismo esportivo, os diálogos da Copa com a Olimpíada Rio 2016 ou, ainda, como o Mundial pode contribuir para melhorar a qualidade do futebol brasileiro, a gestão das arenas pós-Copa e outros temas. Voltaremos a eles depois.
Foi uma bela Copa, essa a de 2014. Relembrar, além de ser uma forma de reviver as emoções, é também uma forma de construir um futuro melhor. Com certeza, não vamos nos esquecer tão cedo.
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