Pistas para entender melhor a Copa do Mundo de 2014

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Engana-se quem vê no Mundial de Futebol somente “a celebração do esporte”, os megaeventos esportivos cada vez mais são espaços políticos, econômicos, culturais em detrimento da sua vocação para a atividade esportiva.

Quanto mais cresce a Copa do Mundo como megaevento menos espaço para o futebol como manifestação cultural há dentro dela.

A Copa do Mundo do Brasil, de poucos legados materiais, pode deixar um importante legado social e simbólico: efetivamente pode contribuir para redimensionar o conceito de megaeventos esportivos daqui para frente.

 

Sempre que penso nos megaeventos esportivos lembro de algumas manifestações que são típicas desse contexto. O curioso é que elas são “a cara” da Copa do Mundo, ainda que tenham pouco a ver como futebol.  Uma delas é a febre dos álbuns de figurinhas. Outra é a obsessão das pessoas por adquirirem aparelhos de TV cada vez mais high tech. Uma terceira é o discurso da mídia sobre a plateia global que acompanha essas atividades.

Por fim, dá para acrescentar um contexto novo que surge com os protestos e com manifestantes que se irmanam na causa do “#NãoVaiTerCopa. Entre a aglomeração de pessoas que querem celebrar, há um espaço para outros grupos que preferem protestar, ainda que dentro do mesmo espaço social criado pelo megaevento esportivo.

Os assuntos listados acima parecem ter como ponto de convergência o futebol, mas na verdade o que os une é essa importante manifestação social e midiática que foi crescendo ao longo do século passado: os megaeventos esportivos. Vejam que, no último mundial, por exemplo, a audiência acumulada foi de cerca de 30 bilhões de pessoas. Mas do estamos falando, se neste planeta que vivemos existem cerca de 7 bilhões de habitantes?

Nesse contexto é que faz sentido o papel das tecnologias da informação e da comunicação como agentes estratégicos para o sucesso de uma Copa do Mundo. Isso começa na preocupação da Fifa com as conexões nas arenas, mas chega aos torcedores que se preocupam em ter aparelhos eficientes para se integrar ao evento, por meio das imagens.

É também por meio das imagens que podemos entender a “febre das figurinhas”. Segundo números divulgados no mercado foram produzidos mais de 8,5 milhões de álbuns e a troca dos cromos contagiou de crianças até fãs da terceira idade. O problema é que o sentido do álbum está mais ligado ao entretenimento do consumo de imagens que ao valor histórico: na prática muitos dos jogadores lá listados não participarão do evento, por não terem sido convocados ou por lesões. O álbum, como produto de consumo, diverge das seleções enquanto times de futebol.

Por fim, também ganharam espaço central na Copa do Mundo do Brasil os protestos, com slogans pedindo melhorias sociais “Padrão Fifa”. Iniciados na Copa das Confederações, em junho de 2013, a princípio não tinham uma relação direta com o evento, mas ganharam com ele uma força política e simbólica maior. Sem dúvida, foram as manifestações sociais mais importantes no País desde o impeachment do presidente Fernando Collor.

Por tudo isso, podemos afirmar que, de uma mega-atividade esportiva, no sentido de grandeza mesmo, o esporte espetacularizado de uma Olimpíada e da Copa do Mundo torna-se uma mega-manifestação de mídia. Megaevento Esportivo é, inegavelmente, um produto de mídia. Ele surge nas mídias tradicionais, no século passado, e muda rapidamente com as novas tecnologias, agora já no século XXI.

O esporte midiatizado é mais que o jogo-jogado nos estádios. É produto de consumo, é objeto político-econômico. No mundo dos megaeventos esportivos, o esporte deixa de ser o foco da mensagem para constituir-se em cenário para um conjunto variado de imagens que se apresentam espetacularmente nos mais variados dispositivos comunicacionais (televisores, computadores, telefones celulares, tablets, produtos impressos, etc.).

É nesse sentido que a Copa do Mundo do Brasil, se não for a “Copa das Copas”, ao menos, não será uma “Copa qualquer”. Os megaeventos esportivos construíram ao longo do tempo espaços midiáticos poderosíssimos para tudo o que não é esporte acontecer dentro deles. E isso está culminando nesse ciclo esportivo brasileiro.

Por isso tudo, faz sentido que, no “País do Futebol”, a Copa do Mundo tenha o seu momento de inflexão. Talvez o maior legado do “Brasil 2014” seja fazer o mundo repensar o que é a essa paixão pelo futebol e quais os caminhos estão sendo tomados por tudo o que não é esporte, mas que está mudando significativamente o esporte na atualidade.

Mais que nunca, entender os megaeventos esportivos – e a Copa do Mundo no contexto brasileiro é o mais expressivo – implica em estudos sobre economia tradicional, mas também sobre a economia simbólica e a gestão das imagens nessa mídia convergente. Os megaeventos esportivos têm tudo a ver com a televisão, mas terão que aprender a lidar com a internet e as redes sociais.

Por mais que os protestos neguem o Mundial de Futebol, eles são tão expressivos dentro dele quanto colecionar figurinhas. Como duas faces de uma mesma moeda, eles farão que a Copa do Mundo do Brasil deixe um legado cultural inesperado e inquietante. A Fifa já sabe disso. E a bola nem começou a rolar ainda.

 

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