O primeiro aniversário do “7 a 1”

Derrota maiúscula sofrida por brasileiros na Copa de 2014 expôs feridas e farsas sobre o que se faz e se pensa sobre o futebol brasileiro

por Anderson Gurgel

Aproveitando a efeméride que marca o primeiro aniversário do “7 a 1”, resgatei um texto que fiz logo após o ocorrido, para minha coluna no Portal Imprensa. Produzido ainda “a sangue quente”, ele me parece trazer questões que ainda continuam válidas para se refletir sobre o que significou aquela derrota, mesmo com o distanciamento de um ano do ocorrido.

Ao meu, também, alguns aspectos até se tornaram aguçados, visto alguns desdobramentos envolvendo o futebol brasileiro e a cartolagem que o cerca.

O fato é que a retumbante derrota sofrida pela seleção brasileira ante a equipe alemã, na semifinal da Copa do Mundo de 2014, no fatídico oito de julho do ano passado, em Belo Horizonte, foi recebida pelo “País do Futebol” de maneira bem distinta de outra tragédia, a de 1950, na final da Copa daquele ano, no Maracanã.

Nada mais óbvio, afinal. O Brasil da segunda década do Século XXI é muito diferente daquele de 64 anos antes. Daí que entre os brasileiros a reação à derrota no Mineirão foi bem distinta, com muito menos catatonia e desespero.

A teoria do marketing diz que há uma evolução no comportamento do consumidor. Ele vai se tornando menos ingênuo e mais pragmático ao longo do tempo. Se pensarmos o futebol como produto, vemos que o seu público-alvo já vem percebendo que o que se entrega é muito aquém do que ele já foi no passado.

Por isso, no fim, podemos ver que a reação foi até um pouco apática, quando a derrota se tornou concreta. Como diz o ditado, a história, ao se repetir, vai da tragédia à farsa. E, de certa maneira, o sentimento relacionado à goleada levada pelos brasileiros reflete muito disso.

Para muitos, já naquele momento, mas até hoje, a reação possível era de fazer humor. Muitas brincadeiras circularam nas redes sociais que são muito boas e ajudam a ilustrar as dimensões da derrota do Brasil, por 7 a 1, para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo de 2014. Uma das melhores mostrava uma versão alterada de trechos do jogo, realizado no Mineirão, em Belo Horizonte, onde a seleção alemã jogava sozinha. Como se não houvesse brasileiros em campo. Sim, houve um apagão. Os craques, sob o manto sagrado da camisa amarelinha, foram apagados pela inevitabilidade de um futebol superior, mais eficiente e, tragicamente, mais vistoso.

No dia da tragédia do 7 a 1, os brasileiros descobriram que a fórmula do “jogo bonito” já não pertence mais ao futebol brasileiro. Quem deu show foi a seleção alemã.

Por isso, consolida-se, um ano depois, a ideia de que o Brasil teve, sem dúvida, uma das suas derrotas mais espetaculares, senão a maior. E isso se consolida a cada dia, pois os ecos daquela tragédia foram somente iniciados no Mineirão.

O pesadelo iniciado lá está longe de acabar, como podemos ver continuamente com a eliminação na Copa América, pelo Paraguai”. Ou no desinteresse que cresce no torcedor brasileiro pelo futebol nacional.

 Dito tudo isso, resgato um trecho do texto original, que fiz há um ano:

 “O esporte, enquanto atividade cultural, é uma concessão. Adoramos esportes, pois por meio deles saímos da vida cotidiana para sonhar, para realizar rituais que nos dão algum sentido, nos ensinam coisas e nos fazem transcender. 
 Nesse sentido, toda vitória é a transcendência e a celebração do ritual da vida, da vitória da vida sobre a morte. A derrota, como par obrigatório, nos obriga a celebrar o seu oposto: a morte. Os derrotados são oferendas à morte.
 Não estava errado o presidente da CBF (naquela ocasião), José Maria Marin, ao dizer que a derrota na campanha da Copa de 2014 levaria todos ao inferno. Celebrar a derrota é fazer o ritual de confissão da incapacidade de conquistar a vida. 
 Na Copa do Mundo, a vida, simbolizada na vitória, tem forma de taça, a Taça Fifa. Levantar a taça é como acender um farol de imensa luz e vida sobre todos os que estão sob o julgo dessa crença. O ritual da Copa do Mundo tem algo de uma cruzada em busca do Santo Graal, o mítico objeto que tem poderes mágicos e de transformação da vida. Faz todo sentido, não? Vencer é efetivamente transformar a vida.
 Daí que a espetacular derrota do Brasil também nos ensina muito. Pois a derrota na busca pelo Santo Graal também traz aprendizado. Em um país de cultura hiperbólica, não nos bastava ser somente um bom local para jogar futebol, quisemos ser ‘o país do futebol’. Não bastava fazer uma boa Copa, nos propusemos a fazer ‘a Copa das Copas’.
Colhemos, ao fim, ‘a derrota das derrotas’. O que não deixa de ter uma poética sublime para nos iluminar no caminho a partir de agora.”

O pior para mim, mais que a derrota em si, é a incapacidade que nós, brasileiros, temos de aprender com as tragédias. É inevitável, com isso, que ela vire farsa.

Não há limites para o fundo do poço, pois efetivamente não sintetizamos o luto da derrota em prol de algo maior.

A nossa tragédia farsesca se repete em um inferno existencial sem fim. Um ano não é nada para o in(fer)verno que viveremos no futebol nacional.

Como não aprendemos/mudamos com a tragédia do 7 a 1, ele marca um jogo que não acabou. Sinceramente, tenho até medo de saber qual é o atual placar.

 

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