O esporte (e cena brasileira) em 2016

Fim de um ciclo, que 2016 traga o vislumbrar de um novo projeto de país

Fim de um ciclo, que o ano de 2016 traga o vislumbrar de um novo projeto de país

Com a Olimpíada no Rio de Janeiro, o Brasil entra na reta final de um ciclo de dez anos de megaeventos esportivos entre decepções e promessas de uma nova fase para a cultura desportiva nacional.

Anderson Gurgel, de São Paulo

Em 2016 estamos encerrando um ciclo que, visto de longe, foi chamado de “década de ouro do esporte brasileiro”. A expressão foi cunhada após a confirmação do Rio de Janeiro como sede dos primeiros Jogos Olímpicos sul-americanos e marcou a euforia que o país vivia naquela época, por volta de 2009, com a economia e com as perspectivas de que o “Brasil era a bola da vez”.
A ideia de uma “década especial” tinha a ver com o ciclo que foi iniciado com os Jogos Pan-americanos Rio 2007 e que se encerraria com o Rio 2016 (olimpíada e paralimpíada). No meio desses dez anos: uma Copa das Confederações e uma Copa do Mundo, além de outros eventos menores e perspectivas variadas. No fim do túnel, no mundo dos sonhos, sairíamos “um outro país”, renovado, no esporte e na vida sócio-político-econômica.

O fato é que o Brasil que chega ao fim desse ciclo de dez anos é diferente do que entrou nele, mas talvez nem tanto assim. Se o país de hoje é o futuro reiteradamente falado na mitologia nacional, ele é um futuro-passado. Ou seja, uma presentificação do que, no passado, projetamos como futuro. Do que fizemos como elaboração da promessa de futuro.

O Brasil de hoje é o Brasil de sempre. E o esporte, na sua capacidade única de construir cenários ricamente ilustrativos, nos ajuda a perceber isso. O futebol, nossa quimera ufanista, há muito deixou de ser o motivo de orgulho que já foi e ainda ostenta um símbolo doído gerado pelo 7×1.

Temos poucos craques, times que, no seu melhor, seriam Série B de torneios europeus e um público cada vez mais de olho no quintal do vizinho, ou seja, nos Barcelona, Chelsea e outros super-times globalizados.

Prometemos que o esporte seria motor do desenvolvimento social, mas repetimos muitas mazelas do passado: gastos (e que gastos!) com os estádios e pouco com infraestrutura. Criamos arenas belíssimas, mas pateticamente mal aproveitadas. Prometemos uma coisa e entregamos outra: gastos públicos em arenas e nada de investimentos públicos em obras de vocação social.

Gastamos muitos, mas quem lucrou, de fato, foi a Fifa. Para completar uma parceria peculiar com essa entidade suíça, mergulhamos com ela, de cabeça, num dos escândalos internacionais do ano de 2015, com a prisão de inúmeros cartolas, como o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, a partir de investigações do FBI.

Até a Fifa vem mudando, por pressão dos escândalos, mas no Brasil reiteramos no erro. A CBF e seu sistema político permanecem envelhecidos e envelhecendo o futebol brasileiro. O Bom Senso FC bate à parte, mas não consegue entrar. Matamos nosso futebol na loucura das mazelas do passado, da cultura cunhadista e corrupta.

Como não concordar que o futebol explica o Brasil? Explica o passado, o presente e o futuro do nosso país.

Pois eis que o Brasil, por consequência de um novo contexto macroambiental e também por algumas ações bem-sucedidas, mostra-se como uma nação que vai além do futebol. Apesar dos escândalos recentes, o vôlei é uma força nacional, tem talentos e público. O basquete, esporte tradicional, movimenta-se em busca de um novo ciclo espelhado no seu passado glorioso.

O desafio de o Brasil olímpico é ir além disso. Como ser sede de uma olimpíada sem estimular plenamente a multivocação esportiva? Essa pergunta vem soando por todos os lados e gerando algumas iniciativas que rompam com os fenômenos meteóricos que já rolaram por aqui: como a fase do tênis, com Guga.

Esta é a promessa que fica para o fim da aventura dos megaeventos esportivos brasileiros. Não teremos, no Rio 2016, um time para brigar com as maiores potências olímpicas (EUA, China e Rússia), mas será que isso deveria ser nosso objetivo agora?

Apesar de ter menos erros que a Copa do Mundo, o projeto olímpico nacional também tem alguns erros e desvios de foco: o projeto de geração de atletas de alto nível atrasou. Podemos ter bons resultados, mas ainda dependerão mais de talentos que da criação de uma máquina de preparação para o alto rendimento. Há muita coisa sendo feita, mas o ápice dessas ações e centros de preparação recém-criados serão nos Jogos Olímpicos futuros, em 2020, 2024, etc.

Erramos em não pensar no longo prazo e em não pensar grande, pensar no futuro. Um exemplo disso era a perspectiva de gerar um grande impacto ambiental com a despoluição da Baia da Guanabara. O projeto não vingou e isso vai criar muitos ruídos durante o Rio 2016, além de acentuar o mau cheiro do cartão postal transformado em esgoto.

Assim como o Brasil, o esporte se transforma. E os Jogos Olímpicos são um dos momentos sublimes para se perceber isso. Ter essa festa acontecendo no nosso país não é qualquer coisa. Que ela contamine os brasileiros de um espírito verdadeiro de “ir mais longe”, “ser mais forte”, “ir à busca de metas mais altas”.

O esporte que mostra as nossas mazelas também pode nos oferecer o espaço para a redenção. Se em 2016 o Brasil reencontrar-se consigo mesmo, já será uma medalha, uma motivação para voltar a pensar no futuro, como um projeto de nação.

Boas Festas!

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