Jogos Pan-americanos no divã

Entre comparações exageradas com olimpíadas ou depreciações de como se fosse uma competição de bairro qualquer, qual é o valor desse tradicional evento esportivo?

Anderson Gurgel

Enquanto se desenrolam as competições dos XVII Jogos Pan-americanos Toronto 2015, que acontecem no Canadá entre os dias 10 a 26 de julho, um debate insistente é visto na mídia. Afinal, para que serve um Pan?

Um bom exemplo dessa redução temática é o embate entre a “Revista Veja” e a “Rede Record”. Em reportagem publicada nas suas páginas e site, no começo de julho, a principal revista do Grupo Abril taxa que o evento “serve para pouca coisa”, ainda mais que muitos esportes estão com competições acontecendo simultaneamente e com mais oportunidades de conquistas de vagas para as Olimpíadas de 2016. E mais: nem todos os grandes atletas do continente participam, gerando resultados “irreais” sobre o valor das conquistas.

Na contrapartida, a Record, fez um texto, no “Portal R7”, questionando: “Pra que serve a Veja? – Ou por que a revista quer sepultar sonhos e incríveis histórias de superação de atletas”. A partir dessa premissa, o jornalista Celso Fonseca ilustra uma série de exemplos bem-sucedidos de atletas brasileiros no Pan de Toronto e questiona a postura da publicação da Abril.

Para além de um embate entre essa revista, já afeita a polêmicas, e uma emissora que tem interesse no evento, já que tem seus direitos de transmissão exclusivos no país, o que vemos é que os Jogos Pan-americanos estão realmente na berlinda.

Longe de defender pontos de vista ideológicos, o fato é que “Veja” tem algumas razões, no que se refere ao processo de canibalização e briga pelo poder e dinheiro que existe no esporte atualmente, gerando eventos aos montes e resultados questionáveis. Sim, para muitas modalidades, o Pan vale pouco.

Contudo, o “R7” também tem razão ao lembrar que o Pan que há alguns resultados relevantes, sim, nos Jogos Pan-americanos. Entre alguns resultados notáveis está a façanha do nadador Thiago Pereira, que se tornou recordista ao chegar a 23 medalhas em edições pan-americanas.

Há, ainda, o pentacampeonato da equipe brasileira de ginástica rítmica e o tetracampeonato do atleta Marcel Sturmer na patinação artística. Isso sem falar do badminton, que envolve um projeto social que já traz resultados também no alto rendimento.

Mas, entre histórias a destacar, também não se pode ignorar os resultados ruins, como os baixos rendimentos da delegação brasileira em esportes tradicionais como o judô, a vela e a ginástica artística.

Com os pontos acima destacados, o fato é que o maior evento esportivo das Américas vem sendo marcado por duas ênfases: uma postura fragmentária da mídia, com a incapacidade de abordar os Jogos Pan-americanos de maneira mais ampla, recortando aspectos ideologizados em detrimento de uma visão mais ampla sobre o que é essa competição continental.

Ainda também cabe acrescentar – e é outro fato que envolve mídia – o desconhecimento do grande público sobre o evento e sobre as competições que estão sendo realizadas.
O desconhecimento do público é fruto da forma como o evento vem sendo coberto pela mídia. A emissora oficial é a Record e, mesmo ela, não vem dando ao Pan 2015 espaço expressivo, colocando as transmissões fora dos horários nobres.

Por outro lado, a Rede Globo, que não tem acesso às imagens das competições, faz uma cobertura jornalística protocolar.

Essa combinação não é suficiente para fazer com o que o Pan 2015 paute a conversa das pessoas. O resultado disso é que o Pan 2015 não consegue chegar ao “povão”.

Depois do Pan 2007, no Rio de Janeiro, que foi vendido ao público “como se fosse uma olimpíada”, Guadalajara, em 2011, e Toronto, agora, caíram no processo oposto, de esfriamento e desinteresse, que me parecem também um pouco exagerados.

Entre uma cobertura que, para além dos fatos, é pautada por visões previamente estabelecidas do evento e uma postura de mídia que “infla” o Pan 2015 como se fosse uma olimpíada ou o “esvazia” como se fosse uma “competição de bairro”, o que se vê é uma completa dificuldade de levar ao público interessado no esporte o que significam essas competições e qual o valor real de cada conquista alcançada.

A competição pan-americana foi criada dentro de uma ideologia de integração continental em contexto histórico e político adverso ao mundo atual. Em uma realidade globalizada, os regionalismos vão perdendo espaço.

Entretanto não se pode negar que é no regional que surgem alternativas ao modelo duro e despersonalizante do mundo integrado proposto pela globalização.

Talvez o sentido para os Jogos Pan-americanos esteja justamente em se aceitar como uma atividade para celebrar relações humanas “no nosso quintal”. Valorizar as relações fronteiriças e continentais dos vários países da América, ser um momento de integração e até mesmo de troca de experiências dos povos nativos daqui para embates em outros contextos, como nas olimpíadas.

Ao não valorizar isso, a mídia cria um evento difuso para seu público, ora vendendo o que ele não é; ora ignorando o que dele se mostra como relevante.

Nessa comunicação dispersa, perde o esporte e a comunidade esportiva pan-americana que não se vê na mídia ou, quando aparece, não se reconhece no que dela se fala nos meios de comunicação.

Nesse contexto, caberia até perguntar: pra que serve a midiatização do Pan, se pouco está comprometida em levar esse evento ao público que ama o esporte acima de qualquer prévia categorização?

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