Eleições em uma sociedade esportivizada

Educação constrói futuros

Pode parecer estranho para amigo leitor o diálogo entre esporte e política que faço aqui, mas sigo uma linha de estudos que vê no esporte muito mais que a prática esportiva. Enquanto manifestação cultural o esporte é uma faceta da sociedade contemporânea. É sobre essa perspectiva que faço algumas observações sobre o processo eleitoral que levou à reeleição da Presidente Dilma.

Podemos afirmar que o esporte e seu ambiente não se restringem ao mundo dos jogos, campeonatos, competições e afins. Ele é uma manifestação cultural: explica e/ou molda o comportamento do homem de maneira muito mais ampla que podemos perceber num primeiro momento.
Por causa de um mau jornalismo, entre outros motivos, tendemos a reduzir o esporte às práticas esportivas do alto rendimento, à competição e às celebridades. Mas isso não é todo do esporte. O esporte é também uma forma de educação e formação de cidadãos. É da natureza do esporte esse sentido educacional.
Como o esporte ensina/explica o mundo, acabamos nos enredando numa sociedade esportivizada. Ou seja, em que o esporte acaba moldando o comportamento dos homens.
O problema é que o foco capitalista e midiático na produtividade e no consumo levou essa esportivização a uma redução, valorizando um lado do esporte em detrimento de outro. Assim, o esporte que é formação, que é um ambiente de aprendizado, acaba sendo tomado por um viés deturpado do que seria a filosofia esportiva em sentido amplo.
É nesse ponto que o link com a eleição de 2014 se torna mais claro. A começar pelas estratégias do marketing político de criar um “nós versus eles”. Essa polarização acabou levando a um “ricos versus pobres”, “sul-sudeste versus nordeste”, etc. Dividir um quadro eleitoral complexo em praticamente um “Fla-Flu” é muito ruim para o processo democrático e, como não poderia deixar de ser, acabou colocando eleitores como torcedores.
Outro aspecto complicado envolve o fato de que a esportivização midiatizada atualmente hipervaloriza a vitória sobre a derrota. Esse modelo pode ser ilustrado pelos conceitos de “winner” e “looser” tão fortes na sociedade norte-americana. Ninguém quer perder a eleição, pois ela virou um jogo altamente competitivo. Como ganhar está acima de dialogar, perde-se a chance de encontrar ideias boas nas mais variadas visões políticas em embate.
O pior é que a obsessão pela vitória ainda leva à perda de uma noção fundamental no esporte moderno: o fair play. Pior que querer vencer a qualquer custo é o desrespeito pelo derrotado. Ou o derrotado que não reconhece a valor de vencedor.
O rito do esporte e do jogo democrático pede que o ganhador valorize o perdedor e que, vice-versa, haja a gentileza de o derrotado reverenciar o ganhador. Isso é civilização, isso é esporte.
Norbert Elias, em seus estudos fala do papel do esporte no processo civilizador, em como essas práticas contribuem para reduzir a violência natural do ser humano, levando-a para o campo do jogo, em prol de um bem-estar social.
O problema é que, com a esportivização da vida, a sublimação da violência volta ao campo do extrajogo, ao cotidiano das pessoas. O jogo da política torna-se uma política esportivizada e, pior, com alto grau de barbárie.
Poderia ir além nessa reflexão, mas para não me estender demais vou colocar somente mais um exemplo. É da natureza do esporte a relação entre ídolos esportivos e espectadores. Cabe a esses ídolos ser como modelos sociais. A responsabilidade dele é enorme.
Por tudo isso, é compreensível que, num cenário de disputa intensa do segundo turno eleitoral, que muitos tenham se posicionado a favor do candidato do PSDB Aécio Neves ou da candidata do PT Dilma Rousseff. Isso é do jogo democrático.
O que não é do jogo – e mais que ninguém os atletas deveriam saber disso – é não saber perder. Daí que é triste que muitos atletas que apoiaram o candidato derrotado, em vez de contribuir para melhorar o clima entre derrotados e vencedores, assumam uma postura beligerante e aumentem o rol de preconceitos e agressividades numa esfera pública já muito carregada.
É um absurdo, pois eles jogam fora a chance de contribuir para que pessoas menos esclarecidas tenham neles um exemplo de cidadania e respeito à democracia.
Acreditando no esporte como elemento cultural dinamizador e altamente educativo mantenho-me otimista. Ainda que a esportivazação exagerada da vida cotidiana prejudique o esporte no seu papel de elemento integrador e formador de cidadãos, acho que o jogo está sendo jogado.
Num momento em que os ânimos estão acirrados com alguns derrotados inconformados e vencedores em soberba cabe a “cidadãos-atletas” dos dois lados buscar a promoção do diálogo.
Não tenho dúvidas que a eleição de 2014 será um fato histórico relevante por muito tempo. Podemos surfar nesse momento histórico como agentes ou se deixar levar pela maré de ódios e competições nada democráticas.
A história valoriza o protagonismo de homens e mulheres que mudam um jogo ruim e fazem belas jogadas, iluminando um cenário de batalha que já parecia perdido. Comecemos um terceiro tempo, buscando um resultado que seja bom não para um time ou outro, mas sim para o Brasil. Prontos para essa partida?
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