Dunga é somente parte do problema

Créditos: Rafael Ribeiro/CBF

Créditos: Rafael Ribeiro/CBF

A reação e rejeição à apresentação do ex-jogador como técnico da Seleção Brasileira são justificadas, mas acaba também escondendo que a crise do futebol brasileiro hoje é ainda maior.

De certa forma, a escolha dele acaba fazendo uma cortina de fumaça para o verdadeiro problema: a falta de um projeto consistente para o principal esporte nacional.

Não podemos negar que a CBF erra e feito, por ser arrogante, por estar desconectada da realidade ao escolher o ex-jogador e ex-técnico Dunga para reassumir como treinador do selecionado nacional.

Contudo, se olharmos o cenário com mais atenção, o que acontece é que a Confederação Brasileira de Futebol corrobora a impressão geral de que está desconectada da realidade, dos anseios da opinião pública e que não tem um planejamento estruturado para recolocar o futebol pentacampeão no patamar outrora alcançado pelo escrete nacional.

Não se pode perder de vista que, em função da tradição e das conquistas da Seleção Brasileira, os resultados recentes são insuficientes. Vejam que o quarto lugar alcançado pelo time de Scolari na Copa do Mundo de 2014 e, anteriormente, a medalha de prata nos Jogos de Londres, com o técnico Mano Menezes, decepcionaram e contribuíram para a percepção geral de que o futebol do Brasil está em decadência.

Na verdade, o futebol brasileiro perdeu o rumo e deixou de ser referência. Se quisermos, dá para dizer que é ainda pior: o País do Futebol passou a ser motivo de chacota mundo afora.

Colocar Dunga no lugar de Scolari é manter a crença de que o problema é personalista. A mudança necessária não passa por um ‘técnico genial’, ‘um salvador da pátria’ que vai resolver o problema do time.

 

A Modernização abortada – A questão central, na verdade, acaba sendo mascarada pela polêmica sobre Dunga e tem a ver com a falta de um novo projeto de futebol que envolva um novo modelo de gestão do futebol, uma nova estrutura administrativa e a adoção de comunicação institucional moderna e estratégias de relações públicas para com parceiros e público-alvo da CBF, ou seja, o torcedor brasileiro.

O que CBF e Dunga não entenderam é que o futebol brasileiro precisa agora do oposto do que a imagem deles representa atualmente.  A principal entidade futebolística do país tem medo de mudar, pois sabe que as mudanças implicam num novo modelo de gestão e que isso não interessa ao atual e ao futuro gestor da CBF.

Mudar significa criar um novo modelo para o futebol brasileiro: novas formas de revelar e preparar os talentos, mecanismos para valorizar os campeonatos nacionais e reter em torneios locais os talentos. Na mesma estratégia, também, teria que haver intercâmbio e vivência internacional para preparar o emocional desses para os momentos críticos. Isso sem falar de novos produtos esportivos para usar as arenas, sob risco de virar elefante branco e etc.

Contudo, está ficando claro que essa renovação não virá por esse caminho. A CBF agarra-se ao passado para garantir a continuidade do poder. Ao fazer isso, continua impondo ao futebol brasileiro uma goleada infinita e que foi iniciada pelos alemães e holandeses.

Quer saber mais? O pior é que se a CBF quisesse mudar já poderia ter feito isso há muito tempo. Em 2000, quando era repórter de negócios do esporte na extinta “Gazeta Mercantil” fiz uma reportagem sobre um evento de apresentação de um suposto Plano de Modernização do Futebol Brasileiro.

Sim, isso mesmo. Naquele momento, a entidade máxima do futebol brasileiro fez uma parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e iniciou um processo que, se tivesse levado a cabo, não estaríamos falando disso ainda hoje. Talvez já tivéssemos até conquistado o hexacampeonato mundial, inclusive.

Se você quiser conhecer um pouco do abordado Plano de Modernização do Futebol Brasileiro, da CBF e FGV, veja aqui o link http://andersongurgel.com.br/um-plano-de-14-anos/ .

Como viver de passado não dá, fica a preocupação com o futuro do futebol brasileiro. Somente a rejeição intensa da opinião pública pode salvar a busca de um projeto sustentável e moderno para o futebol. É por meio dela que pode se formar um fato novo que poderia levar Marin e seus companheiros dessa jornada rumo ao fundo do poço a se abrir ao diálogo e à reciclagem de ideias.

Teve Copa e das boas, mas se continuar nessa toada, ‘não vai ter mais país do futebol’.

Somente uma mobilização à la ‘junho de 2013’ salva o futebol brasileiro. O futebol brasileiro precisa da sua torcida e de novas lideranças e cabeças pensantes para propor novas formas de lidar com os atuais desafios. Caso contrário, seremos peça de museu e tema para programa de humor. Indefinidamente.

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